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Master vendeu ao BRB consignados de servidores de MG, aponta PF

Banco de Vorcaro vendeu ao BRB consignados de servidores do governo de MG, da PM e de Uberaba

Documentos recolhidos pela Polícia Federal (PF) apontam que o Banco Master negociou com o Banco de Brasília (BRB) contratos de crédito consignado vinculados a servidores públicos do governo de Minas Gerais, integrantes da Polícia Militar (PMMG) e funcionários da Prefeitura de Uberaba. As informações constam no inquérito que culminou no indiciamento do banqueiro Daniel Vorcaro e de outras 14 pessoas por envolvimento em um esquema bilionário de fraudes financeiras.

Transações envolviam convênios mineiros em pacotes milionários

Planilhas internas da instituição de Vorcaro revelam que a comercialização dessas carteiras ocorreu em diferentes etapas entre 2024 e o início de 2025. Em agosto de 2024, o BRB desembolsou R$ 12,43 milhões para adquirir contratos com valor presente estimado em R$ 7,31 milhões, divididos entre a Secretaria de Planejamento e Gestão de Minas (Seplag), a PMMG e a administração municipal de Uberaba.

Mensagens interceptadas mostram que a divisão desses valores circulava internamente em grupos de trabalho. Em 9 de agosto de 2024, o gerente Allan da Silva Machado repassou aos colegas o detalhamento com o texto: “Segue o valor da cessão do Brb aberto por convênio”. O termo cessão representa a transferência formal dos direitos creditórios entre as instituições financeiras.

Posteriormente, em 10 de janeiro de 2025, uma nova carteira de R$ 3 bilhões estruturada para venda ao banco estatal continha R$ 178,3 milhões atrelados aos mesmos convênios mineiros. Na ocasião, Allan Machado afirmou que Alberto Félix de Oliveira Neto, chefe da Tesouraria, estava “cobrando a base” e enviou a imagem da “composição dos 3 BI de carteira”.

Ao analisar os dados, Machado estranhou a padronização dos valores e registrou em conversa: “Todo mundo do INSS com valor de operação de 7 mil, 6 mil”. Em seguida, arrematou: “Estranho, mas tudo bem”. Para os investigadores, o diálogo evidencia a consciência da equipe sobre a fragilidade e a provável inexistência dos créditos ofertados.

Montante bilionário e ausência de comprovação de lastro

De acordo com o relatório da PF, as negociações globais entre o Master e o BRB alcançaram R$ 17,5 bilhões de julho de 2024 a outubro de 2025. Desse total, ao menos R$ 12,2 bilhões careciam de comprovação documental sobre a sua real existência. A PF destacou que as listas continham registros “de diferentes regiões do país” e apresentavam “volumes incompatíveis com uma originação regular”.

Nas operações de consignado sem coobrigação, o risco do calote é assumido pelo comprador, mas o vendedor permanece encarregado de processar a cobrança e efetuar o repasse. Conforme apurado, o Master reteve R$ 2,17 bilhões já descontados dos contracheques sem transferi-los ao BRB até fevereiro, dependendo de novas vendas para equilibrar as pendências financeiras anteriores.

Origem suspeita das carteiras de empréstimo

Para abastecer a demanda do BRB, o Master utilizou listas fornecidas por parceiros e empresas de fachada. Inicialmente, a entidade alegou ao Banco Central que os créditos pertenciam a entidades de classe baianas. Mais tarde, atribuiu a posse a uma firma recém-adquirida com capital de apenas R$ 100, registrada em um endereço de coworking em São Paulo onde nem sequer mantinha contrato ativo.

Mesmo com indícios de inconsistências, auditorias internas do BRB detectaram contratos formalizados em nome de pessoas falecidas e clientes que afirmavam nunca ter solicitado os empréstimos. A verificação por amostragem também falhou em confirmar o desconto em folha da maioria dos contratos analisados.

Indiciamentos e desdobramentos judiciais

A cúpula do BRB autorizou os repasses por meio de 25 deliberações, sendo que 21 delas foram fixadas estrategicamente no patamar de R$ 750 milhões para dispensar o crivo do Conselho de Administração. Cerca de R$ 7,6 bilhões foram liberados sem os pareceres técnicos obrigatórios.

Daniel Vorcaro, que se encontra detido preventivamente desde março, responderá por liderar organização criminosa, gestão fraudulenta e lavagem de capitais. O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi indiciado por gestão fraudulenta e organização criminosa, suspeito de receber R$ 146,6 milhões em bens imóveis como contrapartida indevida. Outros executivos de ambas as instituições também constam formalmente no inquérito policial.

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