O Grêmio Recreativo Escola de Samba Paraíso do Tuiuti anuncia seu enredo para o próximo carnaval, mergulhando nas profundas semelhanças culturais e históricas entre Brasil e Cuba. Intitulado “Lonã Ifá Lukumi”, a proposta da agremiação de São Cristóvão busca traçar uma ponte entre as experiências da diáspora africana em ambos os países, revelando um legado de resistência, fé e riqueza cultural que transcendeu séculos de escravidão.
Uma Ponte Histórica e Cultural no Caribe
A narrativa proposta pela Tuiuti convida a uma reflexão sobre um passado compartilhado. Ambos os países mantiveram a escravização de africanos até o final do século XIX, explorando-os em lavouras de cana-de-açúcar e café. Essa exploração gerou não apenas uma imensa riqueza material para as elites brancas, mas também um vasto tesouro cultural que se manifesta até hoje na culinária, no idioma, na música e, sobretudo, na espiritualidade. Cuba surge nesse contexto como um espelho do Brasil, uma ilha no Caribe onde a diáspora africana moldou profundamente a identidade nacional, reverberando em rituais e expressões que encontram paralelos surpreendentes com as manifestações afro-brasileiras.
Decifrando o Enredo: "Lonã Ifá Lukumi"
O título do enredo da Paraíso do Tuiuti, “Lonã Ifá Lukumi”, é intrínseco à sua proposta. 'Lonã' remete a conexões, caminhos e a comunicação entre o humano e o divino. 'Lukumi' (ou Lucumí) designa os descendentes iorubás escravizados em Cuba. Já 'Ifá' é um complexo sistema de conhecimento e religiosidade africana, que, conforme o mestre Nei Lopes, integra espiritualidade, racionalidade, filosofia e técnica, fundamentando diversas práticas rituais. A concepção do enredo foi inspirada no livro “Ifá Lucumí: o resgate da tradição”, de Nei Lopes. O samba-enredo, por sua vez, foi encomendado pela escola ao professor de história e compositor Luiz Antonio Simas, em parceria com Claudio Russo e Gustavo Clarão. Simas expressou grande motivação pelo tema, especialmente pelas relações da religiosidade afro-caribenha com o Brasil.
A Jornada do Ifá na Avenida: O Desfile da Tuiuti
O carnavalesco Jack Vasconcelos delineou um desfile dividido em seis setores, prometendo uma imersão profunda na história e na espiritualidade do Ifá. A progressão narrativa guiará o público desde as origens míticas até a presença contemporânea do culto, pontuando momentos chave da diáspora e da resistência.
Raízes Africanas e Resistência Caribenha
Os primeiros setores da apresentação da Tuiuti abordarão a gênese do Ifá, mostrando sua chegada à Terra e a transmissão primordial do conhecimento aos primeiros babalaôs, os sacerdotes dessa fé. Em seguida, a narrativa explora como o Ifá se disseminou para outras civilizações no continente africano, além dos iorubás. A escola então mergulhará no impacto devastador do tráfico negreiro e na diáspora africana, destacando a feroz resistência à escravidão em Cuba. Um dos episódios marcantes que serão retratados é a Revolta de Matanzas, ocorrida em 1843, liderada por Carlota Lacumí, uma mulher de ascendência iorubá que personifica a força e a religiosidade que cruzaram o Atlântico.
O Florescer Espiritual e a Cultura dos Orixás
O desfile prosseguirá celebrando a espiritualidade dos orixás no “novo mundo”. O quarto setor homenageará Adeshina Remigio Herrera, considerado o primeiro babalaô do Ifá em Cuba, vindo da província de Matanzas. Este momento ilustrará o encontro grandioso e a interação das divindades africanas com as ancestralidades dos povos originários do continente americano, culminando no florescimento do Ifá Lucumí. Na sequência, a Tuiuti apresentará elementos essenciais do culto religioso, como os locais de assentamento, os rituais sagrados (ebós), as comidas e as oferendas, evidenciando as semelhanças profundas com o Candomblé brasileiro.
O Legado e a Chegada do Ifá Lucumí ao Brasil
A conclusão do enredo da Paraíso do Tuiuti traça a linha final da diáspora espiritual, abordando a chegada do Ifá Lucumí ao Brasil. Esse marco se deu no início da década de 1990 com a vinda do babalaô cubano Rafael Zamora Díaz (Awó de Orumilá Ogunda Keté) ao Rio de Janeiro. A escola prestará tributo a essa figura central, cuja vida foi tragicamente interrompida por assassinato na cidade, consolidando a conexão direta e a perpetuação da tradição Ifá entre Cuba e o Brasil.
Com este enredo, a Paraíso do Tuiuti, fundada em 1952 e com um histórico de abordagens sociais impactantes – como o vice-campeonato de 2018 com o enredo sobre a abolição da escravatura –, reafirma seu compromisso em dar voz a narrativas históricas e culturais significativas. O desfile promete ser um espetáculo de celebração da resistência, da fé e da inestimável herança africana que une Brasil e Cuba, enriquecendo o carnaval carioca com sua mensagem profunda e relevante.