Na última terça-feira teve o primeiro clássico mineiro das eliminatórias da Copa do Brasil. Os dois times grandes da capital mineira se enfrentaram em um jogo polêmico, o confronto terminou empatado em 1a1. No entanto, uma jogada violenta ocorrida aos 4 minutos de partida marcou muito mais o clássico do que o que futebol praticado em campo. A entrada dada pelo atacante do Cruzeiro, Kaio Jorge, no zagueiro do Atlético, Ruan Tressoldi.
A entrada foi classificada por alguns como uma “cama de gato”, mas, na verdade é bem diferente do que é a “cama de gato”. Primeiro para entender do que se trata e qual foi a infração cometida pelo atacante do Cruzeiro, é preciso entender qual foi a infração que ele cometeu, realmente. Primeiro, “cama de gato” no futebol é uma jogada irregular em que um atleta se abaixa logo atrás de um adversário que está saltando, fazendo-o desequilibrar no ar e cair de mau jeito no chão, geralmente de costas. Fazendo com que o adversário caia no chão correndo risco de quebrar costelas e algumas delas, possivelmente, dependendo do impacto, causem perfurações em órgãos internos. Ou seja, é uma jogada perigosa.
No entanto, a infração cometida pelo Kaio Jorge foi mais grave ainda do que uma simples “cama de gato”. A questão é que logo no início da partida, o zagueiro do Atlético, Ruan Tressoldi, saltou para disputar uma bola pelo alto e foi atingido no corpo por Kaio Jorge, que vinha em velocidade, abstendo-se de disputar a bola. No movimento, o atacante virou o corpo, usando o seu ombro, pegando o defensor no ainda ar, o que desequilibrou o zagueiro e provocou uma queda forte, de ponta cabeça, com impacto na cabeça e no pescoço. Com a queda havia um forte risco de o zagueiro vir a quebrar o pescoço causando uma fatalidade ou deixa-lo paralisado do pescoço para baixo. Foi um milagre ele ter saído ileso diante da queda.

A falta nem foi assinalada e o atacante, que saiu andando como se nada tivesse feito, muito menos advertido com cartão amarelo. O zagueiro tentou ficar na partida, mas, não conseguiu e foi retirado do jogo por conta do protocolo de concussão, recém-implantado pela FIFA que permite às duas equipes ao invés de 5, fazer 6 substituições no jogo. O problema é que o protocolo visa quando há um choque de cabeça envolvendo atletas das duas equipes, onde ambas seriam prejudicadas. Neste caso, especificamente, não foi assim. A equipe do infrator foi duplamente beneficiada, pois ele retirou o adversário da partida com a infração e a equipe dele ganhou uma substituição a mais para fazer no jogo. Ou seja, a infração foi premiada pelo regulamento.
A imprensa inteira caiu em cima da postura do atacante Kaio Jorge, apenas ex-jogadores ligados ao Cruzeiro e a imprensa cruzeirense que tentaram relativizar o ocorrido. Chegaram ao ponto de usar o choque entre o Bruno Rodrigues e o goleiro Éverson, no final do jogo, como forma de tentar tirar o foco da postura antidesportiva do jogador. Detalhe, no choque entre o atacante do Cruzeiro e o goleiro do Atlético, foi falta do atacante, e ambos machucaram.
Insatisfeito com os contornos adotados pela equipe de arbitragem, a diretoria do Atlético Mineiro entrou com uma representação no STJD contra o atacante do Cruzeiro, que foi amplamente criticada pela imprensa. A mesma imprensa que criticou a postura do atleta que quase provocou uma lesão irreversível na coluna do companheiro de profissão e até mesmo com possibilidade de fatalidade em campo e que não se atentou para o fato, de que até agora a sequência dos fatos beneficiaram o agressor e a sua equipe.
O interessante é que o episódio da queda do zagueiro Ruan Tressoldi ocorreu na mesma semana em que o atleta de jiu-jitsu Willian Masuda, conhecido como Kabuto, perdeu os movimentos do tórax para baixo após sofrer um golpe ilegal de “bate-estaca” durante o Super Pro Jiu-Jitsu 2026, em Londrina. O golpe ilegal foi dado pelo atleta Juliano Di Pelli Machado, também faixa preta na modalidade como Masuda, então ele tinha noção do que estava fazendo. O golpe “bate-estaca” é estritamente proibido nas regras do jiu-jitsu devido ao alto risco de danos severos à medula espinhal.
Mesmo com todos estes contornos apresentados, Kaio Jorge apenas recebeu uma “advertência” do tribunal. A defesa apresentada pelo advogado do Atlético foi rasa, baseando-se apenas no histórico do atleta e não na resposta que o tribunal daria à sociedade e ao futebol ao sentenciar ou não o jogador cruzeirense. Lembrando que um mês atrás, quando um jogador do Cruzeiro que teve a perna quebrada, em uma disputa de bola em que o jogador do Internacional de Porto Alegre exagerou na intensidade e, não teve a intenção de machucar o colega de trabalho, mas, foi duramente penalizado pelo tribunal. Muito se deve a pressão da imprensa esportiva. Com Kaio Jorge, cujo a intenção era machucar o colega, eles tiveram uma postura diferente. Tentando normalizar a infração praticada pelo atleta, como algo corriqueiro no futebol.
Por mais que as pessoas veem a ação do Atlético Mineiro como algo feito como questão de rivalidade, o assunto é muito mais sério do que realmente foi tratado. Um atleta poderia ter morrido em campo diante de uma ação intencional de um atleta que não mediu as consequências. Tanto a cama de gato, como a ação causada pelo Kaio Jorge, que está mais para uma catapulta, devem ser proibidas no futebol e consideradas como jogo brusco grave passível de punição no tribunal, além de cartão vermelho. Pois são igualmente perigosas, porque o atleta que está saltando no ar está totalmente desprotegido e as lesões causadas são gravíssimas.
A imprensa clubista contribuiu para a perpetuação da infração, quando teve a oportunidade de julgar não só um infrator, mas, a infração em si. Não se trata mais de Cruzeiro e Atlético, ou de Kaio Jorge e Ruan Tressoldi, trata-se de algo que precisa desaparecer do futebol, pois, acabará matando alguém dentro de campo em breve. O tempo está passando e cada vez mais o infrator está tendo mais direitos do que as vítimas no Brasil, principalmente, se ele tiver dinheiro e fama.
Alexandre Marques: Cronista e Estudante de Jornalismo da UFOP e parceiro do portal de notícias souestradareal.com.br
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