A divisão clássica entre esquerda e direita, aprendida em bancos escolares ou manuais acadêmicos, parece ter perdido sua eficácia prática no cenário político brasileiro atual. Entre 2016 e 2026, o país viveu uma transformação profunda: o Executivo perdeu protagonismo enquanto o Legislativo consolidou um poder imenso através das emendas parlamentares. Na prática, vivemos um presidencialismo de cooptação que se assemelha a um parlamentarismo sem o devido reconhecimento oficial.
O poder real e a engrenagem legislativa
Enquanto o debate público foca no simbolismo da disputa presidencial, a verdadeira engrenagem do poder reside no Congresso Nacional. Os parlamentares eleitos são os responsáveis por definir orçamentos e viabilizar agendas, mas raramente são o foco das discussões. Esse silêncio é alimentado pela chamada economia da atenção, onde o desempenho nas redes sociais supera a atuação legislativa.
O filósofo Rodrigo Nunes, da PUC-Rio, aponta que os deputados mais votados, “da esquerda, mas, sobretudo, da extrema direita”, são indivíduos “cujas carreiras políticas já nascem no meio digital”. Eles transformam “capital atencional em capital político e econômico”, priorizando o conteúdo performático para o feed em detrimento das regras de alocação de recursos, que rendem pouco engajamento.
A falência dos rótulos tradicionais
O desafio para governar vai além do discurso ideológico. O marqueteiro Igor Paulin, estrategista de campanhas vitoriosas, destaca que bons indicadores econômicos não alcançam a população que permanece endividada e insatisfeita. Para Nunes, a oposição falha ao focar apenas na destruição sem apresentar alternativas concretas. A polarização entre rótulos, que domina o plano federal, parece não ser a mesma lógica aplicada nas eleições estaduais, onde a entrega de resultados locais ganha mais peso.
O impacto da economia da atenção
A forma como consumimos informação nas redes sociais mudou a maneira como percebemos a política. Diferente de um projeto de governo, que exige reflexão, o conteúdo digital oferece uma gratificação instantânea. Segundo Nunes, “não existe mais a praça central da cidade”, resultando em conversas isoladas. Esse ambiente digital, desenhado para maximizar o engajamento através da polêmica, favorece influenciadores de todos os espectros políticos.
O desmanche do centro político
A migração para os extremos ocorreu porque “o centro liberal se desmanchou” e enfrenta uma “crise de credibilidade”. Hoje, a régua que classifica os políticos é insuficiente. Existem liberais que não são conservadores, conservadores que defendem o Estado forte e progressistas que desconfiam do mercado. Tentar encaixar tudo sob o guarda-chuva de “direita” ou “esquerda” é uma simplificação que ignora o eixo sociocultural contemporâneo.
Novas lideranças e o papel da educação
O futuro da política não depende apenas de novos nomes, mas da capacidade de reformar as instituições. Nunes critica o fato de que a informação global esteja “nas mãos de poucas corporações e indivíduos”. Para que a democracia funcione, é urgente integrar letramento digital e educação cívica ao debate sobre a reforma do Estado.
A conclusão é clara: trocar os músicos sem reformar a sala, ou seja, eleger novos líderes sem ajustar as instituições, mantém a mesma acústica falha. A democracia exige tanto lideranças aptas a governar quanto um sistema que obrigue esses agentes a responderem efetivamente por suas decisões.
