O carnaval de 2026 promete ser um palco de reconhecimento e celebração de uma das mais importantes vozes da literatura brasileira. A Unidos da Tijuca, tradicional escola de samba do Rio de Janeiro, anunciou que seu enredo será inteiramente dedicado à vida e obra de Carolina Maria de Jesus, a escritora, cantora, compositora e poeta cuja trajetória de resistência e sabedoria marcou gerações. O desfile, que abrirá com a representação da menina Bitita, promete uma imersão profunda na biografia dessa mulher multifacetada, contada de forma cronológica e impactante.
Bitita e as Múltiplas Facetas de Carolina na Avenida
A Unidos da Tijuca iniciará sua homenagem com a figura da menina Bitita, apelido carinhoso que Carolina recebeu de seu avô Benedito no início do século passado. Em changana ou xichangana, língua de Moçambique, “Bitita” evoca a imagem de uma panela de barro de cor ocre ou preta, simbolizando resiliência e a ancestralidade que permeou a vida da escritora. Ao longo do desfile, diversas outras “Carolinas” serão apresentadas, refletindo as múltiplas identidades e fases de sua existência: da “doméstica” à “catadora”, da “grávida” à “louca do Canindé”, da “escritora” à “marionete” e à “do carnaval”, cada uma narrando um capítulo essencial de sua saga.
A Importância de Acender Luzes em Vidas Apagadas
O carnavalesco Edson Pereira, em entrevista, enfatizou a relevância de trazer à tona a história de Carolina Maria de Jesus, uma figura de grandeza inquestionável, mas cuja trajetória ainda é pouco divulgada. Segundo Pereira, o enredo da escola de samba reflete a necessidade cultural de “acender a luz daqueles que foram apagados pela nossa história”, e Carolina, com sua força e empoderamento, personifica a luta da mulher negra e a resistência em um contexto de adversidades. A escolha do tema é um convite à reflexão sobre as persistentes problemáticas sociais, infelizmente ainda ecoando na realidade atual, configurando-o como um “carnaval de reconhecimento” que ousa “botar o dedo nas feridas” da sociedade.
Da Roça Mineira à Favela do Canindé: A Trajetória de Luta
Nascida em 14 de março de 1914, em uma comunidade rural de Sacramento, Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus foi profundamente influenciada pelo avô alforriado e contador de histórias, bem como pelas mulheres de sua família. Conforme a sinopse da Tijuca, ela “aprendeu os segredos que só o tempo revela no encanto do falar e do ouvir”, imersa no “poder das coisas ditas” e no “espírito desconhecido das letras”. Seus sonhos de uma vida melhor a levaram a São Paulo, onde enfrentou grande preconceito e inúmeras adversidades. Foi na favela do Canindé que ela não apenas se entendeu “no lugar de opressão”, mas também começou a registrar, em seus diários, os preconceitos, feminicídios e a ausência de desenvolvimento social para a população negra, enquanto sonhava em prover comida para seus filhos.
“Quarto de Despejo”: O Legado Literário na Sapucaí
A obra-prima de Carolina Maria de Jesus, “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada”, ganhará destaque especial no desfile da Unidos da Tijuca, sendo tema da terceira alegoria da Azul e Amarela. Lançado em 1960, o livro tornou-se um fenômeno, vendendo 10 mil exemplares na semana de lançamento e sendo traduzido para mais de 14 idiomas e publicado em mais de quarenta países. A alegoria dedicada ao livro será construída com materiais alternativos, como papelão, em uma poética referência à época em que a escritora trabalhava como catadora e usava o dinheiro da venda desses materiais para construir sua casa, transformando a precariedade em matéria-prima para sua arte e sobrevivência.
Nos Bastidores da Grande Homenagem: Desafios e Dedicação
A concretização deste ambicioso projeto biográfico é um trabalho complexo e desafiador, sob a gestão da dupla de diretores de carnaval da Unidos da Tijuca, Fernando Costa e Elisa Fernandes. Embora este seja o primeiro ano de Elisa na função de diretora de carnaval, sua experiência no mundo do samba é vasta; ela já atuou como assessora de imprensa na própria Tijuca e passou uma década (até 2025) na direção de alegorias da Portela. Sua nova missão envolve a enorme responsabilidade de gerenciar todo o projeto do barracão, garantindo que a grandiosidade da vida de Carolina Maria de Jesus seja retratada com a dignidade e o impacto que ela merece na Marquês de Sapucaí.
A Unidos da Tijuca, ao escolher Carolina Maria de Jesus como enredo, não apenas presta uma merecida homenagem a uma das maiores intelectuais brasileiras, mas também reafirma o papel do carnaval como plataforma de conscientização e valorização de narrativas historicamente marginalizadas. O desfile de 2026 será, sem dúvida, um marco na celebração da resiliência, da palavra e do poder transformador de uma mulher que, mesmo em meio à adversidade, ergueu sua voz para o mundo.