Mesmo encarcerado na Penitenciária de Uberaba, no Triângulo Mineiro, Rodrigo Bueno continuava no comando de uma complexa rede de narcotráfico internacional com alcance intercontinental. O esquema foi o alvo central da Operação Bifronte, deflagrada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado em Minas Gerais (FICCO-MG) — força-tarefa composta pela Polícia Federal e pelas polícias Civil, Militar e Penal do estado —, que investiga a circulação de 3,1 toneladas de entorpecentes apreendidas desde 2024.
Conexões globais e isolamento em penitenciária federal
O modelo de negócio da organização baseava-se na aquisição de cocaína na Bolívia e no Peru. Uma parte do volume abastecia o mercado brasileiro, enquanto lotes selecionados eram exportados clandestinamente para a Austrália. Registros encontrados na nuvem de Ricardo Alberto Dutra Scarabelo mostram remessas direcionadas à área da Harbour Bridge, em Sydney. O arquivo digital também continha uma gravação em vídeo de fevereiro de 2025 revelando malas cheias de tabletes, momento em que uma voz confirmava que a remessa “já havia chegado”.
O braço internacional contava ainda com a participação do colombiano Germán Anuar Cano Méndez, que já possuía condenação prévia por narcotráfico na Venezuela. Diante do poder de articulação dos detentos, a 1ª Vara Federal Criminal de Uberaba autorizou o envio de Bueno e de Belquior Mateus Alves de Lima, conhecido como “Campa” ou “Campanha”, para o sistema penitenciário federal.
Identificado pelas autoridades como liderança do Sindicato do Crime do Rio Grande do Norte (SDC/RN), Belquior atuava como tesoureiro de Bueno. Em maio de 2025, ele mantinha sob sua custódia R$ 273,4 mil do grupo e chegou a destinar R$ 10 mil para uma joalheria de Florianópolis (SC) na aquisição de um relógio Rolex para o comparsa. Investigações também apontam que Belquior desembolsou R$ 60 mil para introduzir um smartphone na cadeia, além de planejar ataques contra agentes de segurança, financiar armas e projetar fugas de detentos.
Mandados judiciais e origem da investigação
A ofensiva mobilizou agentes em cinco estados — Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Santa Catarina e Rio Grande do Norte —, cumprindo 46 decisões judiciais, sendo 20 de busca e apreensão, 3 de recolhimento domiciliar com tornozeleira e 23 de prisão preventiva, das quais 18 foram executadas no início das ações. Em território mineiro, as diligências ocorreram em São João del Rei, Guaxupé e Uberlândia, município que concentrou quatro capturas e nove buscas. Foram inseridos também dois alertas na difusão vermelha da Interpol.
O fio condutor do caso surgiu em uma simples fiscalização de trânsito da Polícia Militar. Na ocasião, Bueno conduzia um BMW X6 M Competition avaliado em mais de R$ 800 mil, registrado em nome de terceiros, e apresentou documentos com a falsa identidade de Rafael Martins. Contra ele já vigorava uma ordem de captura por latrocínio. A partir da apreensão do celular, autorizada judicialmente, a polícia identificou conversas sobre lavagem de capitais e tráfico externo.
Com o avanço do inquérito e o apoio do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), os agentes descobriram diálogos diretos de Bueno com um fornecedor boliviano identificado como “Dany”. Uma das planilhas interceptadas exibia o cálculo “40 x 23.000 = 920.000”, correspondente à transação de 40 quilos de cocaína pelo valor unitário de R$ 23 mil, acusando R$ 642 mil quitados e pendência de R$ 278 mil.
Lavagem de dinheiro e patrimônio oculto
Para mascarar os recursos ilícitos, a organização estruturou uma ala financeira com 14 pessoas encarregadas de pulverizar quantias bancárias para driblar os sistemas de controle. Warmyd Wenglleedy da Silva Fernandes, por exemplo, transacionou R$ 2,76 milhões entre outubro de 2024 e julho de 2025 sem lastro econômico formal. No mesmo expediente, Michael Jackson da Silva Vanderley, o “Zóio”, movimentou mais de R$ 724 mil em cerca de um mês.
A ocultação de patrimônio envolvia o círculo familiar do líder:
- A filha de Bueno, aos 21 anos e sem ocupação declarada, adquiriu um apartamento de R$ 1,6 milhão em Uberlândia em novembro de 2025, aportando R$ 1,3 milhão na entrada.
- A esposa do criminoso, desempregada desde 2008, comprou um sítio no município mineiro de Prata em fevereiro de 2026, com pagamento integral em espécie.
A propriedade rural havia sido registrada meses antes por Liliane Soares de Araújo, apontada como “laranja” do bando. Sob a titularidade de Liliane figuravam ainda uma chácara avaliada em R$ 2 milhões em Cumari (GO), frequentada pela família de Bueno, e o veículo de uso pessoal da filha do chefe, retido posteriormente em junho de 2026 com um condutor que transportava 425 quilos de pasta base.
A pedido da polícia, a Justiça decretou o bloqueio de bens de até R$ 1
