A trajetória de Kayete, uma das figuras mais expressivas da cultura popular de Belo Horizonte, é marcada por uma sólida carreira de mais de três décadas que atravessa o teatro, o rádio, a televisão e o jornalismo. Mulher trans, preta e de origem periférica, ela construiu um legado artístico consistente baseado em talento, inteligência e persistência, abrindo caminhos para a representatividade e a diversidade nos palcos mineiros.
As raízes e a infância em Belo Horizonte
Nascida na capital mineira, Kayete cresceu em um ambiente familiar afetuoso que lhe proporcionou forte senso de pertencimento, embora o mundo exterior apresentasse barreiras severas. Durante a infância na década de 1980, sua expressão afeminada a tornou alvo frequente de bullying e constrangimentos escolares. Sobre essa fase difícil, Kayete afirmou: “Sim, também nasceu do respiro do preconceito, quando você é uma criança afeminada, tudo fica mais difícil”.
Ainda na escola, ela percebeu que a arte e a criação podiam transformar relações humanas, organizando desfiles e apresentações nos intervalos com outros estudantes marginalizados. Relembrando o período, Kayete declarou: “Acho que daí entendi que nasci para me comunicar e foi através da dor que me transformei”.
O pioneirismo na comédia e no rádio
Com referências marcantes como Rogéria, Elke Maravilha e Ney Matogrosso, Kayete iniciou sua caminhada profissional em espaços alternativos, como a Noite do Bilhetinho em uma lanchonete do bairro Glória, onde recebeu seu primeiro cachê em lanches. O talento para a comunicação logo a levou para o rádio comunitário, passando por emissoras como OVNI FM, Transamérica, 98 FM e Extra FM, até se consolidar na BH FM com programas de grande audiência, como o Cassino da Kayete.
Nos palcos, protagonizou marcos do teatro popular mineiro, como o espetáculo As Barbeiras — que permaneceu em cartaz por cerca de doze anos — e Guara-pa-rir, comédia que venceu o Prêmio Copasa-Sinparc de Maior Público em 2015 e atraiu centenas de milhares de espectadores.
Ativismo cultural e projetos digitais
Durante a pandemia de Covid-19 em 2020, Kayete idealizou o Festival Mini Cenas Web em parceria com o Culturadoria, estimulando a classe artística e escrevendo textos dramáticos. Na televisão e no audiovisual, destacou-se como repórter do SBT e na série As Mineiras, Uai, interpretando a personagem Duda no episódio dirigido por Márcio Trigo.
Sua relevância ultrapassou o meio artístico, tornando-se tema de pesquisas acadêmicas na Universidade Federal de Ouro Preto e atuando como madrinha artística da Santa Casa e da tradicional Banda Mole no carnaval de Belo Horizonte.
Resumindo sua jornada de superação e conquistas artísticas, Kayete conclui que leva consigo a vontade de continuar enfrentando e vencendo desafios “com muito gliter e coragem”.